NO LIMITE 1
Julho 25, 2008
Entrevista: Amendoim
( NO LIMITE 1 )
| TIMELEI -Inicialmente, poderia nos dizer o seu nome, idade, sua formação, e em que você trabalha? |
| AMENDOIM - Bom, meu nome é Paulo César Martins Vieira, mais conhecido como Amendoim. Estou à frente há sete meses na Associação, também como diretor. Esse já é o segundo mandato nosso. Nós temos aqui, justamente, um trabalho social dentro da associação. Nós temos o posto médico, onde nós temos psicólogos, sociólogos, fonoaudiólogos, dentistas e clínico geral. No total são vinte funcionários, pra tentar ajudar a demanda que tem na nossa comunidade, que é muito grande. Eu faço parte de uma associação que se chama AMABR - Associação de Moradores e Amigos do Bairro da Rocinha - que é a parte baixa da comunidade, onde nós temos o lado do comércio que é super grande, muito desenvolvido aqui em baixo. Nós temos um outro trabalho também, perto da Associação, que é judô, jiu-jitsu e tae kwon do, que é o esporte. A gente desenvolve os trabalhos com meninos carentes, um projeto trazido pela Universidade Gama Filho. Ela nos procurou e, imediatamente, a gente acolheu esse projeto. Em pouco tempo, nós já temos campeões cariocas da comunidade, competindo com várias academias do Leblon, Copacabana, Ipanema. São academias de grande nome e essa garotada carente está nos dando a maior surpresa. Isso nos alegra muito, porque o nosso objetivo enquanto diretor da comunidade e da Associação é voltado para tirar essas crianças das ruas, através do esporte, que é uma das melhores formas de se fazer isto. Se vão ser atletas, vão depender de treinamento, mas o objetivo em si é social. É resgatar tudo aquilo que a gente tinha na infância, nada de novo. É você ter respeito pelo próximo, é ser patriota acima de tudo, é cantar o seu hino nacional e ensinar cidadania a essas crianças que serão o futuro do nosso país. Isso é só dentro da associação. Acho que a participação do Amendoim no No Limite foi muito forte. Eu já tinha o nome. O que o Amendoim está vivendo agora, ele viveu quando tinha dez anos de idade, só que a televisão, na época, não era tão forte quanto é hoje, a Globo não era a potência que ela é hoje. Na época era o rádio e o jornal. Eu, particularmente, fico contente, porque com isso, a gente pode contribuir com a comunidade. Essa foi uma opção que eu tive. A minha formação já foi voltada para a comunidade. Estudei fora do Brasil. |
| T - Qual é a sua formação escolar? |
| A - Eu tenho três faculdades: Letras, Turismo e sou formado pela Universidade de Maiss, na Alemanha. Tudo isso, para poder investir na comunidade. Eu fiquei durante doze anos fora do Brasil, na Alemanha, França, Itália, estive na Romênia, Áustria. O mais longo que eu vivi foi em Portugal. Acho que isso fez com que eu tivesse o objetivo de um dia não sair da Rocinha, mas sim de desenvolver. Pode ser que, amanhã, eu saia por uma necessidade política, não que eu seja político, mas que as coisas me levem por esse caminho. Mas o nosso objetivo é trabalhar, não só aqui dentro, mas também em outras comunidades carentes que venham a seguir o mesmo modelo da Rocinha. Enquanto vários países estão lutando pela paz, brigam, matam, aqui a gente está lutando dentro de uma política governamental, conversando com os políticos de igual para igual, pelo social. Os políticos do Brasil não podem dizer que aqui não tem um trabalho social, porque tem. Evidentemente que ele tem que ter muito mais ênfase, botar como prioridade. O que se vê hoje é tudo voltado para o individual. A gente tem que pensar como nação. Se for assim, a gente vai ter desenvolvimento. Eu penso assim: espero que as outras pessoas que venham depois de mim, como presidentes da Associação, façam o mesmo trabalho, ou então façam melhor. Tem que ter humildade de dizer “Poxa, você fez um bom trabalho!”. Mas, ao contrário, um está sempre queimando o outro dizendo que fez isso ou deixou de fazer. Não interessa. De uma forma ou outra, ele fez. Faça você melhor! E outros virão para fazer melhor. Com o individualismo, não se desenvolve nada. Você está vendo hoje o problema do Congresso. Os caras que um dia jogaram pedras uns nos outros, no dia seguinte estão todos abraçados. Não dá para entender. No Brasil é assim: o cara morde e assopra, morde e assopra. A política não pode ser assim. Tem que ter um objetivo só: resgatar tudo o que a gente perdeu. Vamos recuperar o patriotismo. São vários grupos que não se juntam. Temos milhares de partidos e não temos um objetivo concreto. |
| T - Você é filiado ao PT, né? Você não pensa em se candidatar a nada? |
| A - Não, não. Eu até fui convidado recentemente por outro partido, o do governador, mas eu acho que é uma questão de trabalho. A gente tem que terminar o que começou. Ainda tenho dois anos para cumprir e eu espero cumprir esse mandato. Se a gente na comunidade já sofre a pressão que a gente sofre, imagina dentro daquele Congresso! Esse trabalho que está sendo feito hoje é um sonho meu há 17 ou 18 anos. |
| T - Que idade você tem? |
| A - Eu tô na “idade do cavalo” (risos). É quarenta e quatro, mas tô com cara de garotão, diz aí? (risos) Mas a gente tem esse objetivo mesmo, o PC do B tem uma base aqui de jovens . A história do partido é de estudantes. Eles vão poder conseguir conduzir e mudar a direção desse país. Ainda são aqueles coronéis que estão comandando. Se a sociedade achar necessária a minha participação, com certeza farei pelo anseio dela. Acho que o trabalho que você vai desenvolvendo leva para esse caminho. Eu nunca esperava estar nessa posição hoje. Esperava estudar, ter uma família, fazer o bem para as pessoas, porque essa foi a minha educação. |
| T - Você é casado? |
| A - Casado, casado? Engraçado é que as coisas acontecem na vida da gente…você sabe que para casar a gente tem que conhecer bastante a pessoa, né? Mas é aquele negócio… você conhece tanto a pessoa e depois separa! Eu conheci a “nega véia” num dia que eu estava no maior sufoco, já há um tempão sem “muié”. Aí, eu pensei: “Pô, é fogo, já vai lá pra um ano e meio. Eu tô estudando, tô no pique da Globo e tô esquecendo….”. Eu tinha saído de um relacionamento há pouco. Quando você desenvolve um trabalho, você precisa de uma pessoa que compreenda esse trabalho. Ao mesmo tempo, quando você está voltado para ele, não pode esquecer da sua família. Mas o fundamental para mim são as pessoas que precisam de você, assim com a sua família. Então, não deu certo, porque eu sempre fui o que eu sou mesmo. O ciúme é normal, mas quando é demais, quando a “muié” começa a bater no “home”, o “home” tem que começar a ralar, não dá, não. (risos). Ah… a muié começou a querer bater em mim, aí eu cantei pneu, sabe? (risos) Não vou bater, né? Porque o homem é mais forte que a mulher mesmo, então, é melhor separar. Ela me deu um tapa no pé do ouvido sabe? (risos). |
| T - (risos) Você estava mijando fora da privada? |
| A - Não, rapaz! Eu não tava mijando, nada. Eu estava na faculdade conversando com uma garota e levei uma “guarda-chuvada” na barriga. Fiquei uma semana sem ir à aula! (risos) Fiquei com vergonha dos colegas que iam me encarnar. Falei “Num vou mais pra faculdade, num vou voltar mais! Viu o que você fez? Você bateu em mim!”. (risos) Aí, depois, eu fiquei com aquela cara, né? Decidi terminar com ela para nunca mais. O amor é uma coisa muito legal, mas é muito complicado. |
| T - E em sexo à primeira vista, você acredita? |
| A - Meu amigo, sexo é uma coisa que eu vou te contar. Faz parte do ser humano, né? O cara que não tem sexo fica maluco! Todo cara que fica maluco aí na rua sozinho é porque não tem sexo. E sexo é bom! A muié fica nervosa… as mulheres adoram ficar nervosas, né? |
| T - Então, um tapinha dói? |
| A - Dóóói! Pó, ela me batia bem. (risos) Depois ela queria me matar…nãão. Sofri pra caramba, mas eu falei “um dia eu te largo!”. Sumi dela! Aí, tinha três pra escolher. Eu falei para as três: “Vocês querem casar comigo?”. Como eu tava brincando, elas não acreditaram. Aí, teve umazinha que chegou pra mim e aceitou. Eu nem sabia…era viúva. Então ela foi morar comigo. Quando eu fui descobrir, a nêga tinha três filhos! Meu Deus! Era tudo pequenininho. O mais novo tinha quatro meses. Aí eu resolvi cair por ali mesmo e pronto. Mas é uma coisa difícil. As mulheres logo desconfiam que você tá dando volta, né? Sempre passa essas coisas na cabeça delas. |
| T - Mas depois do No Limite, você teve mais sucesso com as mulheres? |
| A - Não, não…ainda mais porque eu moro na comunidade. Então, se eu chego pra uma mulher e digo “Eu tô a fim de você”, a pessoa ía logo achar que eu estava de encarnação com ela. Mas, mesmo assim, eu tô satisfeito com a minha nêga-véia, graças a Deus, sabe? Estou satisfeito com meus filhos. Com essa brincadeira, eu conheci num dia e casei no mesmo dia. Já vai pra dez anos! É uma pessoa maravilhosa que eu sonhava. Eu tô na idade do cavalo, né? Eu fiz um filho com trinta e nove anos do segundo set e lembro até onde: foi no sofá. (risos) |
| T - E vem cá… e aquele kit de sobrevivência do No Limite? O que você fez com aquela camisinha? |
| A - Colocaram aquela camisinha não sei pra quem. Pra sombra? (risos) Pra pegar quem? A minha voltou intacta. Você sabe que a gente que é pobre - e eu, que morei no interior - a mulher do ser humano, dos adolescentes, é uma cabritinha, uma galinhazinha. A gente pega, né? Porque tá ruim a coisa… A cachorra não, porque a cachorra fica grudada. (risos). Mas é coisa de criança, mesmo. Não tem nada, né? Aí, pega uma mulinha, sobe numa escadinha, carca na mulinha. Não tinha como ter sexo. Fazer sexo com a barriga vazia, não dá. É bom fazer sexo e comer, encher a barriga. Comer, comer e comer. Então, não posso dizer que não dava vontade. Mas eu vou armar pra cima de quem? Da Hilma? (risos) Tá ligado? Da Hilca, que era grandoona? A Pipa, nem pensar…ela vai olhar pra mim… O Marcos, que era um garotão, deitava lá com a Hilca. Mas era tudo bem, porque todo mundo dormia abraçadinho, gostoso, com suas meninas, na boa, no maior respeito. À noite esfriava, porque ventava muito. Então, um ficava querendo se proteger com o outro. A Hilca que era grandona, pegava todo o vento. Aí, rolou um papo lá que o Marcos estava pegando a Hilca. Ele ficava “Quê?! Eu não!”. Aí, a gente teve que mudar. Ficamos dormindo um com o outro, agarrado, igual homem quando dorme na rua, sabe? Eu cheguei pro Tiago na minha frente e disse “Tiago, fica ligado porque eu costumo sonhar a noite.” (risos). Ele ficou “O que?! Eu vou dormir lá no canto!”. Eu resolvi dormir de barriga para cima! Não ía dormir de lado não! Mas eu acho que foi legal. O primeiro No Limite, pelo que as próprias pessoas diziam, foi o melhor mesmo. Agora todo mundo já sabe como é, ficam se articulando para tirarem os outros. Não tinha uma dose de humor. Não tinha uma sacanagenzinha. Eu tava lá pensando no prêmio. Eu nem sabia o que era quando fui. Me escolheram na rua. Eu tava durinho, né, meu amigo? Tinha acabado de operar a “capital da Coréia”. Revoltado, seis meses sem receber do INSS. Olhei embaixo da Coréia e pensei “O negócio tá russo”. Devendo a Deus e o mundo. E pobre quando fica devendo até morre. |
| T - E como foi o convite para você participar do programa? A Coréia quase te elimina antes mesmo do NO LIMITE começar? |
| A - Eles falaram que ía ter um prêmio, mas nem falaram o que era. Aí, a gente ficou batalhando, fazendo testes. Só não tocaram na “capital da Coréia”, porque se tocam, eu nem ía. Até aconselho para os maiores de quarenta anos que façam o teste da próstata, porque o negócio é serio, mata legal. Eu fui salvo em cima da hora. Nunca tive nada, ía até participar de uma competição. Mas como eu tenho médico em casa e eu gosto muito de debates da área médica, eu tinha ouvido dizer que a AIDS mata muito menos que a próstata. Eu não tinha nem noção do que era próstata. Aí, eu fiquei sabendo que tinha que fazer um teste e tal. Fui lá fazer pra ver o que que era isso. Cheguei e vi todo mundo triste, com uma cara de chorão. Eu falei “O que que tá havendo? Vocês estão doentes?” e me responderam “Não, é que a gente veio fazer o teste”. Eu pensei “o da próstata? Ah, esse é moleza!”, mesmo sem saber o que era. Cada um que entrava saía com a cara mais tora. Quando cheguei lá, o doutor perguntou “E aí, o que está havendo?”, eu disse “Não dotô, é o negócio da próstata…que eu fiz uma entrevista e eu queria ver…”. Aí, ele pegou logo o maior luvão. Ele está conversando comigo e metendo a luva na mão. Eu pensei que ele estava com nojo de tocar em mim. Aí, ele mandou ajoelhar. Jesus! Eu perguntei “Peraí, dotô…ajoelhar pra que?” e ele disse “Não, meu filho, é que eu tenho que dar o toque”. Quando ele veio, eu perguntei se não tinha outro jeito. Ele falou “Não, você só não pode gostar”. (risos) Eu no maior sufoco e ele falando que eu não podia gostar. Meu amigo, quando ele deu o toque… |
| T - Foi bem dado? |
| A - Quê isso…bem dado nada! Eu só sei que foi o seguinte. Em caráter urgente, em menos de uma semana eu tive que operar. Eu não vi não, mas eu perdi metade de uma bola de tênis. Muito triste. Eu ía morrer, porque ele falou que o que eu tive, a maioria morre. Quando começa a dar o sintoma, já quase não adianta mais. Então, quando completamos trinta e pouco, quarenta anos, temos que ir. Tenho um colega meu que falava que preferia morrer e agora tá carimbado. É horrível isso. Operou, mas toda hora tem que voltar, perdeu peso… eu fui salvo mesmo. Eu estava trabalhando à noite, com meninos de rua, dando um apoio. O médico falou que eu tinha que ficar um ano de recuperação. Eu falei “Pô dotô, pra pobre, um ano é muita coisa. A gente tem que trabalhar”. Mesmo assim, eu cumpri o que ele falou. Graças a Deus, eu fiquei legal. Aí, voltei a trabalhar e fui mandado embora. Também, eu estava na televisão toda hora, né? Mas ninguém estava sentindo na pele o que eu estava sentindo. Dura, dívida… Pô, meu amigo, depois que eu ganhei meu carrinho, eu vendi e paguei todas as minhas dívidas. Eu tinha dívidas de R$1500,00 todo mês que eu gastava em casa com alimentação, roupa, material escolar. São seis na minha casa. Quero dar do bom e do melhor para os meus filhos, mas se eu puder dar do bom, pelo menos, já é alguma coisa. Então aliviou. Eu sou paizão. Não tive pai, meu pai morreu quando eu tinha dois anos. |
| T - E você tem irmãos? |
| A - Tenho dez irmãos, e não conheço ninguém. Corri atrás e só consegui recuperar três irmãs. E aí, já não é mais a mesma coisa. Você perde toda a identidade familiar. Trinta anos longe de mim e, de repente, me encontra. É meio complicado. Identidade é aquela que é desde pequenininho. Mas tudo bem, eu tive um irmão, o Hervaldo. A gente se conheceu quando era pequeno, quando ele fazia natação. Ele me convidou pra ir pra casa dele. Eu morava na casa de estudantes e lá quase não tinham coisas suas. Ele pegou todas as minhas fotografias e levou pra casa dele. Quando eu cheguei lá, já tinha um quarto com todas as minhas coisas. Ele fez tudinho. É um irmão que eu amo até hoje, amo mesmo. Tanto que o carro eu deixei até pra ele. Pelo que ele fez por mim, entendeu? Dei igual, porque em outra vez ele já tinha me dado um carro. É a única forma de ajudar. Não tenho essas coisas. Nunca tive carrinho na mão, nunca brinquei de carrinho quando era pequeno. O carro, hoje, serve mais para a comunidade, para a Associação, do que para mim. Ele me deu um dinheiro pelo carro, está me dando até hoje. Paga quando quiser, quando puder. Se não pagar também está tudo bem, está tudo em casa. Paguei minhas dívidas. Queria o dinheiro para isso. Pobre não pode ficar devendo, que fica doente. Quando você vê alguém falando sozinho na rua, é porque está devendo pra caramba. (risos) |
| T - A gente tem uma informação de que você recebeu uma proposta pra fazer um programa humorístico… |
| A - É, estou estudando. Hoje faço parte do time da Rede Globo (de futebol). Eu já conhecia todo mundo desde antes, jogava bola, treinava com eles. Nesse jogo, tem que ser amigo do empresário, do cara que organiza. Mas como eu ía jogar, mas não era freqüente…jogava hoje, daqui a quinze dias voltava. Até porque eu fui jogar no catinquelê, um encontro da galera da Globo, onde jogam uma pelada. Ih, nego descarrega, xinga a mãe, você fica bobo…um barato! Tapa quer comer em pelada. Porque está todo mundo estressado com esse negócio de televisão e lá é onde todo mundo descarrega. Tem que separar maluco que quer brigar. Mas depois fica tudo bem. Quando acaba o jogo, a gente vai tomar uma cerveja. Então, quando me convidam, eu vou jogar. Nesse jogo, estão as pessoas que estão na mídia. Ganha um “catatauzinho também, né? E ajuda em casa, uns duzentinhos, trezentinhos…os caras que já tem nome ganham mais. Eu tive uma época em que eu estava bem. E lá em casa tem seis bocas, né? Entra mais uma merrequinha aí. A gente fez um jogo agora que passou no Vídeo Show. Estava cheio de cerveja! Ah, que coisa gostosa. (risos). Teve um amigo meu que quer ir de novo. Ele perdeu a linha! (risos). Tinha churrasqueira, um monte de mulher bonita…não eram a minha, mas eram bonitas. E eu disse pra ela “Não vai ter mulher, não! Se tiver, eu quero morrer preto”. Depois ela viu na TV e veio logo pra cima de mim. Eu falei que elas chegaram lá, mas saíram logo. (risos) Aquele futebol foi único. |
| T - Mas e a proposta? |
| A - Eu estou estudando, quero até ir lá treinar com o Chico, porque ele eu já conheço de quando a gente jogava futebol. Eu andei com o Guga, o Guga é meu parceiro. A gente andava sempre junto. Mas sei lá…as pessoas falam comigo e ficam rindo à toa. Conversam comigo pra rir. Tem alguma coisa errada com a minha cara. A garota chega e fala “Pô, Amendoim, adoro você!” e aí, começa a rir. Acabou. Perdi a mulher. (risos) |
| T - Você já é quase um timelei… |
| A - É aquela coisa… você já foi a Búzios? Naquela Rua das Pedras? Meu amigo, andei tanto que fiquei com sete calos. Andei pra lá e pra cá. Era cheio de mulher. E ninguém pegou ninguém! Aí, você fica cansado. (risos) |
| T - E aquele bafafá de que você ía processar o Marcos, quando você foi eliminado do No Limite? |
| A - O problema é o seguinte. Rapaz, a fome é tão engraçada que até o lance do Marcos foi engraçado. Eu estava há cento e cinqüenta metros dele. Eu ouvi o Marcos me chamar de crioulo. Fiquei com uma audição do caramba. Porque a discussão, na realidade, já vinha de quatro quilômetros atrás. O Marcos viu umas vacas. Aquelas vacas eram montadas…colocaram lá para criar olho na gente. A gente cheio de fome e aquelas vacas gordas, o que você vai dizer? Eu olhava e já imaginava ela sem couro, com uma madeira queimando embaixo dela e ela girando num espeto. O Marcos apelou: “Eu quero mamar! Eu quero mamar!”. Eu falei: “Marcos, não dá pra mamar! O peito da vaca tá sujo”. E a fome era tão grande que o peito aumentava. Mas não tem cabimento. Todo mundo foi contra. Eu, Tiago, Pipa, Hilma. A Hilca já tinha saído. E o Marcos: “Porra, você não quer deixar eu comer!”. E eu: “Não é deixar, cara, mas não tem cabimento. Quem vai correr atrás da vaca? Você não mata nem uma sombra parada!”. (risos) Eu também tava com muita fome. Aí, eu peguei caramujos. Enfiei a mão lá no mar e voltou um troço redondo. Todo mundo foi contra. Aí, eu lembrei do tal do escargot e falei “Esse deve ser o primo do escargot!”. A Pipa chegou e falou: “Isso é cocô! Eu já fui em restaurante e eu sei o que é escargot!”. Eu falei “Mas esse é o primo, ou tio, sei lá…é alguma coisa parecida.” Eu saí da lagoa revoltado e decidi: “Vou cozinhar!”. Saí com o bolso lotado, acho que quase dois ou três quilos. Cheguei, lavei, botei a água pra ferver, cozinhei. Aí, eu fui quebrando, tirando e separando, porque estava cheio de areia da lagoa. Comecei a comer e ninguém queria. Aí, um chegou e falou “Hum, é igual a marisco”. Eu falei “Ah é? Cocô virou marisco agora?”. Que maravilha. Comi tudo. Só que naquele dia, a gente tinha saído para pescar. Cumpade, tinha uma lagoazinha com uns camarõezinhos. O Marcos viu e saiu correndo, chamando a gente. A gente perguntou o que tinha lá e ele disse “Escorpião!”. Aí, eu falei que a gente não ía. Ele insistiu. Quando a gente chegou lá, era camarão. Ah, um buracão! Fomos pra cima. Que maravilha, pegamos muito camarão. Foi a única coisa que ele fez. Pegar também, ele nem quis. Ficou só no sol, deitado no sol. Pô, bicho, deixei o maior panelão. Pescamos cará. A gente pegou um grupo de cará que eu não entendi. Não sei se eles colocaram lá. Sabe quando chove muito e faz uma poça? A poça limpinha cheia de carazinha? Tivemos que esvaziar todo o negócio que estava cheio d’água para catar as carás. Aí, misturamos peixinho, cará, camarão. A gente cozinhou, tudo bem, legal. Mas logo naquele dia, a gente estava saindo pro portal. Até aquele momento, eu não estava combinado para sair. Eu não bati de frente com o Marcos. Eu só achei aquilo ridículo, de a gente beber o leite da vaca, porque o leite da vaca é muito forte. Se você beber o leite puro da vaca, fica desandado legal. Entendeu? Então, naquele momento, ía fazer mal pra gente. Teve aquela polêmica toda. “Pô, esse crioulo”. Ah, falou em crioulo, não pelo “crioulo”, mas crioulo, ainda mais cheio de fome, é duas vezes crioulo. Fiquei revoltado. Fui dar um soco nele, rapá. Parti pra cima dele, aí, coloquei a mão na consciência e pensei “Ai, meu Deus! E o carrinho?”. E o carro? Acabei admitindo que eu era crioulo mesmo, é mole? Falei: “Eu sou crioulo, sim! E tenho personalidade!”. Acho que falei um negócio assim. Saí, depois a gente encontrou com a Globo. Toda a direção da Globo, todos os tubarões, vieram me pedir para ir à Petrópolis. Queriam que eu fosse à Petrópolis. O cara me chama de crioulo e ainda vou daqui pra lá pra gente se desculpar. Falei não! Eu disse pra mandarem ele descer que a gente se…. Eu não tenho nenhuma bronca dele. Ele é maneiro. Garotão, legal, maneiro, maneirão. Mas ele não foi feliz. Eu acho que o Marcos, dentro do programa, era o perdido do grupo. |
| T - É, e além do mais, ninguém gostava dele…Mas não era essa a função dele? Depois teve uma chuva de e-mails, todo mundo discutindo…tinha até o site www.euodeiomarcos.com.br! Ele gerou polêmica e audiência. E a Andréa? A galera também não simpatizava muito com ela também não. Mas a Andréa é outra história… |
| A - (risos) Quando chegou lá, não era nada disso. Era igual geléia. Agora, ela está boa. Tá maravilhosa. Eu falei que agora que ela devia posar. Ía comprar muito. Porque quando você sai do programa, você sai sequinho. Esse pessoal do segundo, sem querer criticar, ficava de biquíni pra lá e pra cá. Com o tempo, você vai emagrecer. Eu nunca vi osso posar para a Playboy, né? Agora, de repente…Também, não sei o que houve, até me questionei por que a Lhitts nunca apareceu. Sumiu, não quis nada, ninguém comentou nada. |
| T - É, mas também, a versão dois não teve a mesma audiência. Não foi a mesma coisa. |
| A - Não podiam ter feito o dois logo em seguida. Deviam ter esperado um ano, um ano e meio. Porque as pessoas nem esqueceram ainda o um. Eu, hoje, estou lidando bem com tudo isso. No início, é uma loucura. Quando a gente sai do jogo da Globo, todo mundo em cima, agarrando… Eu não estou nem aí. Eu sou povão também. Eu dou beijinho em todo mundo. (risos) Acho que foi bom para a comunidade, as coisas cresceram. Muita gente, empresários que eu nunca pensei estão aqui dentro, colocando o negócio e já estão com resultados. Agências de viagem que não tinha, aqui dentro. A Estácio veio e vai ficar aqui dentro da favela. Mas o governo já quer comer um pedaço e a gente não sabe comer, só sabe dar. O governo vê que a gente tem grana e deu uma parte deles. Vai ser feito aqui no chapéu. Mas eu acho que tá tudo bem, contanto que fique dentro da Rocinha. Na minha concepção, não se pode priorizar só a favela da Rocinha. Tem que abrir mais. A cidade é aberta. Cadê o lado social disso? Rico e pobre caminham juntos e a gente não pode fugir disso. Na própria faculdade tem, né? A gente tem que conviver com esse tipo de coisa. |
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